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22/12/2010 - 13:03h
DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

Amigos,

   Gostaria de compartilhar com vcs minha experiência com doenças respiratórias em pássaros nativos. Durante estes anos em que tenho me dedicado à preservação de nossos pássaros, vivi e tratei vários casos de doenças respiratórias - em pássaros de meu plantel e em pássaros de outras pessoas.

   Este artigo não é um tratado técnico para veterinários, biólogos ou seja lá o que for. É um artigo para criadores. Isto posto não usarei os termos conforme livros de medicina, mas tentarei falar na liguagem do passarinheiro.

Primeiro gostaria de classificar DOENÇAS RESPIRATÓRIAS. Temos alguns tipos:

INFECÇÕES - Causadas por bactérias na sua maioria, causam dificuldade para respirar, barulho (chiado), secreção e afetam pulmões e sacos aéreos*.

ÁCAROS DE TRAQUÉIA - Causam dificuldades para respirar e um chiado bem baixinho (seco).

DOENÇA RESPIRATÓRIA CRÔNICA - A causa raíz pode variar (na minha opnião), mas na maioria das vezes é causada por uma infecção mal tratada. A ave fica com o que o passarinheiro chama de "batedeira", um chiado forte para respirar. Em minha experiência tenho visto muitas aves (bicudos) com este sintoma quando tomam banho ou quando o tempo esfria. (Algo como uma crise de asma)

FALSA DOENÇA RESPIRATÓRIA - Problema mecânico causado por corpo estranho que obstrui o canal respiratório da ave.

   Após classificar gostaria de contextualizar, em ordem inversa, para compartilhar algumas experiências, tratamento e principalmente estatísticas.

   Certa vez notei uma dificuldade de respirar em um filhote de trinca ferro nascido em meu criatório. Ao levar na veterinária, exame clínico completo. Diagnóstico inconclusivo, não havia ruído nos pulmões ou nos sacos aéreos, não havia secreção, mas a ave estava com muita dificuldade de respirar.

   Tratamos como infecção, não surtiu efeito e em 2 dias a ave veio a óbito. Imediatamente levei na veterinária para necrópsia**. Diagnóstico: uma partícula de 1mm de alimento obstruiu o canal da traqueia impedindo a ave de respirar. FALSA DOENÇA RESPIRATÓRIA.

   Outro caso aconteceu com um amigo que tinha um bicudo muito bom que após um torneio, chegou em casa no fundo da gaiola com muita dificuldade de respirar. Corre pra lá, corre pra cá, pegou na mão para tentar um diagnóstico. Viu uma casca de semente obstruindo o canal respiratório, por sorte ainda estava visivel pelo bico e com alguma espécie de pinça conseguiu retirar a casca de semente.

   Tenho uma bicuda, chamada CACHOEIRA, irmã de pai e mãe do grande bicudo KALEF. Ela respira fazendo um barulho terrível. Nunca pára, a não ser enquanto está chocando que as vezes diminui e chega a parar. Já foi tratada para várias causas e nada mudou seu comportamento.

   Coletamos amostras do interior de seu bico e cloaca para exames e nada que explique tal sintoma. Talvez uma doença mal curada a deixou com a sequela. Nestes casos não há o que fazer.

   Outras tantos bicudos já vi que demonstram mesmo sintoma somente em momentos específicos como banho ou mudança de brusca de temperatura. O que deve ser feito?

   Buscar um veterinário e exame completo. É preciso descobrir se há algum agente infeccioso para o restante do plantel e tratar. Na granja avícula a doença respiratória crôncia é tratada com baytrill ou tylan. Em nossos bicudos é o primeiro caminho. Também consegui resultados com o uso de homeopatia.

   Os ÁCAROS DE TRAQUÉIA são difíceis de se diagnosticar. Uma forma é a observação minuciosa pelo dono da aves com o complemento do veterinário. Se o pássaro possuir a mania de coçar o bico no poleiro com frequencia, tiver os pés cascudos, e tiver alguma dificuldade de respirar, pode ser ácaro. Um veterinário experiente consegue num exame clínico observar algumas evidências do agente malicioso e ajuda no diagnóstico.

   A boa notícia é que o tratamento, feito com veterinário, é rápido e não causa nenhum mal ou dano colateral. Com a diluição correta de ivomec + água é possível dar diretamente no bico da ave o medicamento e a melhora é quase imediata. Porque boa notícia?

   Porque se não sabemos o que é podemos iniciar dois tratamentos ao mesmo tempo, para ácaro e para infecções. Há um duplo benefício nisso que é o tratamento de uma possível infecção secundária causada pelo enfraquecimento do sistema imunológico devido ao ácaro.

Agora vamos ao mais demorado. Falemos das INFECÇÕES!

O diagnóstico é feito observando o comportamento da ave. Tudo muito parecido. Por isso um veterinário deve ser consultado - sempre. Em especial passeriformes, precisam de diagnóstico rápido! Algumas horas podem fazer a diferença entre a vida e a morte, por isso se você observar seu pássaro com dificuldades de respirar, cantando com tom menor que de costume ou falhando notas, não caia na tentação de ir trabalhar e olhar novamente a noite. Pode não dar tempo!

Após diagnóstico por veterinário - que vai procurar secreção e chiados nos pulmões e sacos aéreos, iniciasse o tratamento. Vou relatar alguns casos abaixo com tratamentos diferenciados:

ENXURRADA - Ave: bicudo, sexo: fêmea. Era uma criadeira e estava com filhote quando apresentou cansaço e secreção (gosma). Chamei a veterinária que diagnosticou uma infecção (não tinha chiado nos pulmões ou sacos aéreos), coletou amostras da secreção para cultura e antibiograma***. Mas iniciou o tratamento.

Como eu falei que queria salvar o filhote (que nada tinha) ela optou por aplicação de antibótico por injeção intramuscular (no peito). Tratamento experimental, resultado eficaz! Em três dias de tratamento mãe e filhotes saudáveis (não foi necessário tratar o filhote).

Por sorte o antibiótico escolhido fez efeito e a bactéria era sensível ao mesmo. Escolha da veterinária. Após resultados de exames... tudo se confirmou.

REBECA - Ave: bicudo, sexo: fêmea. Era uma criadeira no período de muda. Apresentou cansaço, não tinha secreção e começou um ruído muito baixo. Durante exame clínico, ruídos nos pulmões e sacos aéreos. Neste caso não dá pra tratar somente via oral ou intra muscular. Apenas a nebulização com antibiótico faz o remédio chegar onde precisa.

O detalhe para este caso foi que observei uma mudança de comportamento, mas demorei para chamar a veterinária. Assim o tratamento (1 antibiótico oral + 1 antibótico com mucolítico via nebulização) não conseguiu salvar a fêmea. Após óbito, necrópsia e exames diagnosticaram uma bactéria resistente. Mas a morte dela nos ensinou coisas importantes.

Após o caso da Rebeca, alguns bicudos em sua maioria filhotes, apresentaram mesmo sintoma, inciamos o mesmo tratamento - agora o com antibiótico correto (após exames da necrópsia). Não morreu nenhum.

FAVORITA - Ave: trinca, sexo: fêmea. Nascida em casa esta filhota com 8 meses apresentou infecção, após exames clínicos, tratamento via oral e nebolização. Melhora significativa nso primeiros 3 dias, e sintomas desaparecendo até o dia 06 do tratamento. Morte súbita no 7º dia. Muita tristeza, mas uma certeza. Necrópsia para descobrir o que houve. Pulmões e sacos aéreos limpos com exceção de um "caso" (não sei se é assim que se fala) que se formou e obstruiu a traqueia quando foi expelir. Caso é o "pus" das aves, como alguem encatarrado que ao se tratar tosse e expele o catarro, assim aconteceu com a FAVORITA. Mas nos pássaros o pus é duro, e isso pode ocorrer.

Pessoal, esta é nossa experiência. Espero que vocês tenham percebido que este artigo trata de algo comum, que ocorre muito em locais onde o clima é seco e tem tratamento. Muitas aves salvamos e algumas perdemos. E qual a principal lição que tiramos disso tudo?

VETERINÁRIO É FUNDAMENTAL. QUALIDADE DO AR É FUNDAMENTAL. OBSERVAÇÃO É FUNDAMENTAL. E ECONOMIZAR APÓS MORTE DE UMA AVES É BURRICE - NECRÓPSIA É FUNDAMENTAL.

* Pequenos espaços que ajudam a aves no vôo e fazem parte do sistema respiratório

** Exame pos mortem. Passarinho morreu, manda fazer necrópsia, gasta dinheiro, mas ajuda no diagnóstico do próximo passarinho doente - se houver.

*** Cultura e antibiograma - exames para descobrir qual bactéria causou a infecção e a qual antibiótico ela é sensível. Essencial para tratamento dos próximos animais doentes se houver.

Criatório Quinto Dia - Investindo na preservação de nossos pássaros.


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