ARTIGOS
 
25/04/2017 - 16:40h
Como medir resultado na criação de bicudos para fibra?

 
Todo ano, há muito tempo, surgem novos pássaros campeões, novos pássaros encantando em uma etapa ou outra e as discussões sobre qual a melhor genética continua na pauta de quase todos os passarinheiros. Ainda mais nessa época de muda de penas, os pássaros parados e seus donos cantando demais.

Eu e minha esposa estamos investindo tudo o que temos e o que não temos na criação de bicudos desde 2003 quando adquiri o GENGIS KHAN. Esse foi um aborto. Não tivemos dinheiro para comprar a fêmea então ele ia aos torneios comigo sem fêmea mesmo... na época os campeonatos ainda eram na caneta e existia o campeonato brasileiro febraps e eu participei de alguns, sempre trazendo troféus.

Depois começamos a aventura de criar. Geramos alguns filhotes que deram alegrias nas rodas, Mirião (infelizmente morreu), Gengis khan JR (que surgiu lá no RJ e depois sumiu), Nanande e o principal deles Android. Ficamos desde aquela época com a Moisélia, Rute e a Moriá. Essa família tem uma característica quase infalível, a precocidade. Tudo vem cedo, tanto macho quanto fêmeas e vão pra roda com certa facilidade. Não é uma linhagem de alta produção, mas fibra tem e pra cantar seus 6 minutos.

Com o tempo descobrimos o Bárbaro, tirei uma ninhadinha e passamos pra frente, foi parar na mão do Nami e foi o primeiro tatu x cobra a ser campeão em Niterói. Aliás bi-campeão. Continuei criando com o filho do bárbaro por aqui, vários excelentes filhotes mas ainda não vinha um campeão.

Momento de repensar. Apagar o plano e escrever outro... Junto com meu amigo Cassaro, compramos o Puro Sangue, campeão de ribeirão preto (campeonato tão disputado quanto a sonit), vencendo Buriti, Mustang, tornado e outras feras. Reproduzimos um pouco e ele foi para o criatório Cassaro dar continuidade.
Voltamos a estaca zero... Começamos a criar com força usando o Android, filhotes super precoces e pelo que estamos ouvindo falar, vão dar trabalho. Temos uma base. Agora por onde ir?

Nesse meio tempo escolhemos a linhagem SOBE DESCE como o foco de nosso investimento. Mas não existe linhagem pior para a reprodução do que essa. As fêmeas só criam muito acasaladas e não são todos os machos que são bons galadores. Entre idas e vindas formamos um time menor, mas com o sangue mais próximo do SOBE DESCE que conseguimos.

A ideia é formar um time de fêmeas que aguente na fibra qualquer macho que utilizemos como galador. Isso porque observar características de fibra nas fêmeas é apenas através de sua prole, então precisamos criar, segurar alguns e avaliar. Logo, muito mais difícil de selecionar. Já nos machos é só levar no torneio e observar se o bicho tem as características que buscamos.

Hoje as linhagens de bicudo fibra no brasil são parecidas com times de futebol. Criador não é cientista, está mais para torcedor, alguns até fanáticos (eu estava assim). Isso é uma merda! Deixamos nossas paixões nos cegarem tanto que avaliamos de forma totalmente equivocada nossa própria produção e acabamos perdendo tempo.

Não vou discutir com ninguém sobre qual a melhor raça, sobre qual melhor linhagem. Não me importa o que você pensa, a questão é definir os critérios e escolher uma linha, eu escolhi a minha linha e vou seguir, com base nos meus critérios, se você quiser ir na mesma linha e ter algum filhote meu, será uma honra fornecer, se não quiser, torço para que você crie campeões e seja feliz com a sua linhagem e me forneça genética de ponta quando eu precisar. (porque sempre precisamos melhorar)

É verdade, esse pensamento reflete a filosofia do Quinto Dia. Quantos criatórios hoje existem e começaram com pássaros meus? Vários! E hoje esses criatórios me fornecem pássaros de excelente qualidade. Só existe uma coisa totalmente certa para buscarmos no mundo passarinheiro: amizade. O resto é vaidade e cada um no seu quadrado cuidando do seu redondo.

Senão vejamos: Hoje, dia em que escrevo esse texto, 25/04/2017, existem dois cruzamentos que produziram descendentes expoentes no mundo da fibra de bicudo e em quantidade: SOBE DESCE X RAINHA e LATINO X QUERÊNCIA.
Existem outros bicudos expoentes, mas não quero falar de um determinado indivíduo. Acho que estaria já direcionando o artigo para o lado torcedor. Falando destes cruzamentos, temos ao longo dos anos visto inúmeros bicudos de roda descendentes destas duas árvores iniciais.

Um ponto importante é o critério de avaliação. Avaliar um bicudo que canta 6 a 7 minutos num torneio que inicia com 30 a 40 gaiolas e não tem a marcação de 10 minutos eliminatória, terminando antes de meio dia é querer se enganar. Bicudo de fibra tem que finalizar acima de 5 minutos em torneio grande, passando na eliminatória dos 10 minutos e ficando até o final, após o meio dia. Alguns amigos discordam de mim, mas não ligo. É minha opinião.

De que adianta o bicudo cantar 7 minutos num torneio de 30 gaiolas (ou menos) sendo marcado as 11:30 se quando vai pra um torneio grande não passa na eliminatória ou até passa mas após meio dia não canta mais? Isso pode não ser fibra, pode ser a febre de fêmea, manejo ou sei lá o que... Outro ponto para avaliação do bicudo, na minha opinião, é viajar e se manter firme. Isso é uma
qualidade enorme. E aí entra a qualidade da fêmea e o quanto o casal está acasalado.

Alguns dizem que 5 minutos não é nada. Pois é.… quem vive o mundo das rodas sabe o quanto é difícil achar um bicudo que vai para torneio grande, passa para final e canta acima de 5 minutos. Isso tem que ter fibra... a partir daí, é questão de manejo, amadurecimento do pássaro, tamanho da roda e etc... São inúmeras as variáveis envolvidas.

Veja o caso do Bárbaro, na minha mão não passou de 7 e após ir para mão do Nami chegou a cantar 12 minutos. O tempo passou, o bicho amadureceu, participou de torneios mais fortes... fora que saiu da mão de foca e foi para uma mão muito, muito mais experiente.

Então, para avaliação fundamental, cantou em roda grande, passou pra final, finalizou na casa dos 5 minutos, é um bicudo de fibra. E com esse critério, não há cruzamento no Brasil que tenha produzido mais descendentes com essa característica que os cruzamentos acima.

Vamos a mais informações. Sabemos que geneticamente falando, aqueles percentuais das leis de Mendel, que são muito utilizados hoje em dia, são referentes as probabilidades genéticas e não um percentual fixo que vai efetivamente acontecer. Isso significa que um filho qualquer do casal macho1 x femea1, terá 50% da genética do pai + 50% da genética da mãe. Mas o que é
isso?

Sabendo que estamos falando de probabilidade, vamos definir algumas características, apenas como exemplo, vou escolher 10 características do macho1 e 10 características da femea1 para exemplificar uma ninhada qualquer deste cruzamento:

Macho1
Temperamento: Mansidão
Bico preto
Canto curto
Retomada rápida
Voz baixa
Tamanho médio
Cabeça mole
Bico fino
Patas escuras
Ruim de galar (escolhe femea)

Fêmea1
Temperamento: Arisca
Bico branco
Cantora (repete)
Boa mãe
Pede gala fácil
Voz grossa
quem quem alto
tamanho grande
bico grosso
pena branca no rabo

Digamos que esse cruzamento deu uma ninhada com um casal, macho2 e fêmea2. Para cada um dos filhotes, há 50% de probabilidade para cada característica, no meio de muitas outras características... Vamos pegar uma característica comum, o temperamento: o pai é manso e a mãe é arisca. O resultado pode ser os dois mansos, os dois ariscos, cada um de um jeito, sempre
com 50% de chance de ser de um jeito e 50% de chance de ser de outro jeito... imagina para cada uma das outras características!!!

Isso sem contar com os outros fatores, existem características ligadas ao sexo, genes que anulam outros genes... são tantas as variáveis que não dá pra calcular desta maneira. Para esse tipo de observação, temos a famosa curva.

Q      |
U      |
A      |
N      |
T      |                                         _____
I       |           ____                          3                      ____
D      |             2                                                       4
A      |
D      | ___                                                                     ___
E      |   1                                                                         5
       |________________________________________________________
                Q U A L I D A D E

No Grupo 1 temos aqueles filhos do casal acima com qualidades abaixo da média, pássaros ruins.

No Grupo 5 temos aqueles filhos do casal acima com qualidades acima da média, os craques.

Como podemos ver tanto num grupo quanto no outro a quantidade destes grupos é similar e muito pequena na amostragem.

Nos Grupos 2, 3 e 4 temos a média. Nesses grupos devemos focar nossa avaliação. De um determinado casal a média possui mais qualidades que de outro cruzamento? Então essa cruza seria melhor que as demais.
Nesse ponto que falamos da probabilidade e do trabalho sério, focado e muitas vezes de longo prazo para acharmos um campeão. Aí entra outro fator, muito recente e ainda pouco explorado no meio passarinheiro. Como fazer um trabalho realmente científico para observação das qualidades de cada cruzamento?

Tenho usado os exames da Unigen como base comparando CIGs, mas fazer isso sem a 
observação diária e o acompanhamento da criação até pelo menos 3 anos de idade, é improdutivo.

O ideal seria cruzar um macho (padrão em genética e qualidades desejadas) com algumas poucas fêmeas de genética também muito apurada e segurar todos os filhotes. Com manejo similar, avaliar o desenvolvimento e desempenho de cada filhote. Mas quem consegue isso?

Outra coisa, cada ser vivo tem seu "Q" de especial e único. Ponto de fêmea, acasalamento, manejo diário que gosta. Seria muito difícil um criador manejar 10 casais de bicudos e continuar a observação. É realmente muito difícil.

Uma alternativa, questionável, mas já em uso por alguns criadores, é o uso 
de alguns aditivos hormonais para estimular sinteticamente aquilo que tentamos com fêmea, passeios, brejos, e assim manter o bicudo em ponto de bala. Mas não sei se isso é útil realmente ou se é mais uma forma de nos enganarmos e perdermos tempo.

Enfim, não tem uma fórmula secreta, não tem caminho suave, não tem genética perfeita, não manejo ideal. Tudo é trabalhar sério, anotar os resultados, tentar segurar alguns filhotes, passar outros para amigos que busquem o mesmo objetivo e principalmente buscar a verdade. Com os exames de DNA, só se engana quem quer...

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